Senador Renan Calheiros: o Donald Trump do Agreste

Nas últimas semanas, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) se tornou protagonista de um racha na base aliada do governo. Líder do PMDB no Senado, ele passou a atacar diretamente as reformas  e projetos de lei elaborados por Michel Temer em vídeos divulgados no Twitter.
A decisão de usar as redes sociais e o teor ácido das críticas rendeu a Renan um curioso apelido nos bastidores do Congresso: Trump do Agreste. Renan é um dos parlamentares considerados uma raposa política. Migrando de aliança a aliança, ele se tornou mestre da barganha política desde que chegou a Brasília, em 1979. Confira abaixo a trajetória de um dos mais volúveis políticos do país.
O jovem Renan de Murici
Hoje em dia, Renan Calheiros é associado à corrupção por conta de sua extensa coleção de inquéritos e processos no STF. Mas nem sempre foi assim. O jovem Renan iniciou sua trajetória como um universitário defensor da classe trabalhista e ativista contra a corrupção.
Nascido em Murici, um pequeno município de Alagoas, Renan entrou para a política com a ambição de expurgar o coronelismo em seu estado natal e proteger os trabalhadores brasileiros da oligarquia política.
As causas defendidas por ele chamaram a atenção do deputado alagoano Mendonça Neto (MDB), conhecido por sua atuação contra o regime militar. Em novembro de 1978, com apoio de Neto, Renan se candidatou e foi eleito para o seu primeiro mandato como deputado estadual. Na época, o Brasil vivia um regime bipartidário, regido pelos partidos Arena, alinhado aos militares, e MDB, opositor do regime.
Renan se candidatou pelo MDB, do qual era filiado desde a universidade. Em 1979, com o fim do bipartidarismo, Renan migrou para o PMDB, partido proveniente do antigo MDB. Em 1982, foi eleito deputado federal, também pelo PMDB. Na época, Renan era um feroz crítico do então prefeito de Maceió (AL) Fernando Collor de Mello, a quem Renan chamava de “príncipe herdeiro da corrupção”.
Em seu mandato como deputado federal, Renan votou contra todos os projetos em prol do arrocho salarial, política que impede que os salários sejam reajustados conforme a inflação. Ele também defendeu o projeto de lei que proibia a demissão imotivada do trabalhador. A trajetória política de Renan começou a mudar em 1986, quando se candidatou ao segundo mandato para deputado federal.
ASCENÇÃO E QUEDA
Também foi nessa época que Renan começou a se aproximar de Fernando Collor
Década de 80 foi de inflexão para Renan Calheiros
1438462989891Pode-se dizer que o final da década de 1980 foi um ponto de inflexão na trajetória de Renan. Antes um ferrenho crítico dos usineiros alagoenses e da exploração destes aos trabalhadores, agora ele passa a flertar com a classe. Em 1986, ele obtém o apoio de João Lyra, que, entre outras coisas, já foi investigado por exploração de mão de obra e trabalho escravo. Lyra doou o equivalente a US$ 1 milhão para a campanha de Renan, que foi reeleito deputado federal.
Também foi nessa época que Renan começou a se aproximar de Fernando Collor. A junção dos dois foi mediada por João Lyra, pai de Thereza Collor, que desde 1980 era casada com Pedro Collor, irmão de Fernando Collor.
A aproximação permitiu a criação da chamada “República das Alagoas”, Além de Renan, Collor e Lyra, o grupo contava com os deputados federais Cleto Falcão e Geraldo Bulhões, e Paulo César Farias, tesoureiro de Collor. Em 1987, o grupo começou a articular a campanha presidencial de Collor, que derrotou Lula nas eleições de 1989. Foi nessa época que Renan trocou o PMDB pelo PRN, partido de Collor.
Após a vitória de Collor, Renan, que havia se dedicado completamente à campanha, foi alçado ao posto de líder do governo na Câmara e se tornou responsável por articular a aprovação de todas as propostas do presidente.
Renan se candidatou ao governo de Alagoas nas eleições de 1990. Seu adversário no pleito foi Geraldo Bulhões, um dos seus companheiros da República de Alagoas. Renan esperava que sua fidelidade garantisse o apoio de Collor, mas este optou por uma neutralidade que foi considerada por Renan como apoio velado a Bulhões. A suspeita era agravada pelo fato de PC Farias atuar como tesoureiro de campanha de Bulhões, que venceu a disputa. Sentindo-se traído, Renan rompeu a aliança com Collor e deixou o PRN em 1991.
A vingança de Renan veio na CPI do caso PC, que investigava um esquema denunciado por Pedro Collor, que envolvia fraudes em contratos para desviar verba que era depositada em contas fantasmas, criadas a partir de documentos falsos. As denúncias apontavam que a verba arrecadada era usada para pagar despesas pessoais de Fernando Collor.
Em seu depoimento na CPI, Renan afirmou que Collor sabia do esquema e acusou PC de comandar um “governo paralelo”. No dia seguinte, em um pronunciamento na televisão, Collor negou as acusações e implorou pelo apoio de seus antigos aliados, proferindo a famosa frase “Não me deixem só. Eu preciso de vocês”. O apelo foi em vão, e o escândalo resultou na renúncia de Collor horas antes do julgamento de impeachment.
DE ITAMAR A TEMER
Sua relação foi especialmente conturbada com Dilma, que disfarçava mal o desprezo que tinha pelo PMDB
Renan foi uma das vozes mais atuantes do PMDB na barganha por ministérios
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Após a queda de Collor, Renan se aliou ao governo de Itamar Franco. Assumiu a vice-presidência Executiva da Petrobras Química (Petroquisa), subsidiária da Petrobras, onde ficou até 1994, ano em que foi eleito senador por Alagoas pelo PMDB, cargo que mantém até hoje, tendo se afastado somente para assumir o Ministério da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso. Renan assumiu a presidência do Senado nos governos Lula e Dilma Rousseff.
Em todos os governos, Renan foi uma das vozes mais atuantes do PMDB na barganha por ministérios e postos no Congresso, apoiando ou retirando o apoio conforme os interesses do partido. Sua relação foi especialmente conturbada com Dilma, que diferentemente dos governos e por conta de sua falta de traquejo político, disfarçava mal o desprezo que tinha pelo PMDB. A relação entre o governo Dilma e o PMDB desandou totalmente em 2014, quando o governo decidiu apoiar Arlindo Chinaglia (PT-SP) para a presidência da Câmara, em vez de Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Este último foi responsável pelo rompimento total do PMDB com o governo. Irritado com as denúncias de seu envolvimento na Lava Jato, Cunha acusava o governo Dilma de confabular com Rodrigo Janot, nomeado para Procuradoria-Geral da República em 2013, para envolvê-lo na Lava Jato. Em retaliação, ele aceitou o pedido de impeachment protocolado na Câmara. Em meio ao xadrez político, Renan observou o cenário antes de se tornar o último cacique do PMDB a abandonar o governo.
Ele passou a integrar a base de apoio ao governo de Michel Temer. Porém, o faro de Renan Calheiros o levou ao atual rompimento com o presidente. Percebendo a iminente possibilidade de Temer ter o mandato cassado por conta do julgamento no TSE da chapa Dilma-Temer, bem como a rejeição às propostas do presidente, como a reforma da previdência e a terceirização, Renan optou por romper com o governo, se tornando seu antagonista. A medida também visa garantir o apoio de seu eleitorado em Alagoas, já que o nordeste é a região do país com o mais alto índice de rejeição (90%) ao governo Temer.
A decepção de Mendonça Neto
Mentor de Renan Calheiros quando este ainda era um jovem com forte ideologia política, Mendonça Neto expressou sua decepção com o senador em uma carta aberta, publicada em 2007, no Jornal Extra Alagoas.
Nela, Mendonça Neto, que morreu em 2010, conclui que Renan trocou a lu­ta contra o coronelismo pela busca por po­der. “Do menino ingênuo que eu fui bus­car em Murici para ser deputado es­ta­dual em 1978 – que acreditava na pureza necessária de uma política de oposição dentro da ditadura militar – você, Renan Calheiros, construiu uma trajetória de causar inveja a todos os homens de bem que se acovardam e não aprendem nunca a ousar como os bandidos.
Você é um homem ousado. Com­pre­­endeu, num determinado momento, que a vitória não pertence aos homens de bem, desarmados desta fúria do desatino, que é vencer a qualquer preço. E resolveu ar­­mar-se. Fosse qual fosse o preço, Re­nan Calheiros nunca mais seria o filho do Ola­vo, a digladiar-se com os poderosos Ome­na, na Usina São Simeão, em de­si­gual­dade de forças e de dinheiros.
Decidiu que não iria combatê-los de pei­to aberto, descobriria um atalho, um mil artifícios para vencê-los, e, quem sa­be, um dia derrotaria todos eles, os em­plu­mados almofadinhas que tinham em­pre­gados cujo serviço exclusivo era abanar, durante horas, um leque imenso so­bre a mesa dos usineiros, para que os mos­quitos de Murici (em Murici, até os mos­quitos são vorazes) não mordessem a tez rósea de seus donos: Quem sabe, um dia, com a alavanca da política, não seria Re­nan Calheiros o dono único, coronel de porteira fechada, das terras e do en­genho onde seu pai, humilde, costumava ir buscar o dinheiro da cana, para pagar a educação de seus filhos, e tirava o chapéu para os Omena, poderosos e perigosos”.
A carta foi novamente publicada na internet em 2013, por Thereza Collor,  sendo extensamente veiculada na internet. Atualmente, Renan trabalha reeleger o filho, Renan Filho (PMDB-AL) para o governo de Alagoas, outro fato que mostra o porquê de seu rompimento com Temer.
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